Treino 8 min de leitura
Por que o relógio e o celular marcam distância diferente na corrida?
O relógio marca 10,2 km, o celular 9,9 km e o percurso tinha 10 certinhos. Explicamos de onde vêm as diferenças do GPS e o que fazer para chegar mais perto da distância real.
Publicado por BEON.RUN · · Atualizado em
Você corre com um amigo, lado a lado, no mesmo trajeto. Seu relógio marca 10,24 km, o dele 9,91 km e o app do celular mostra outro número. Na chegada da maratona aparece 42,6 km e você se pergunta se a organização mediu errado. Calma: em quase todos os casos está tudo funcionando exatamente como deveria.
Neste guia você vai entender como o GPS funciona de verdade na corrida, de onde vêm as diferenças de distância e por que as provas parecem sempre um pouco mais longas. No final tem uma tabela com situações típicas e dicas práticas para medir melhor.
Como o celular sabe onde você está
O GPS é só um dos vários sistemas globais de navegação por satélite. O nome geral é GNSS. Celulares e relógios atuais costumam usar vários ao mesmo tempo:
- GPS (Estados Unidos),
- Galileo (União Europeia),
- GLONASS (Rússia),
- BeiDou (China).
Cada satélite transmite um sinal com uma marcação de tempo muito precisa. O receptor mede quanto tempo o sinal levou para chegar e transforma isso em distância até o satélite. Com medidas de pelo menos quatro satélites ele calcula a posição e a hora exata. Quanto mais satélites visíveis e mais espalhados no céu, mais confiável a posição.
O problema é que o sinal de satélite é muito fraco. Ele é bloqueado ou refletido com facilidade. Tudo o que fica entre você e o céu piora a medição: prédios, copa das árvores, viadutos e até seu próprio corpo ou a mochila.
Dupla frequência, o tal multibanda
Relógios mais novos e alguns celulares têm receptores de dupla frequência (vendidos como dual-band ou multibanda, por exemplo L1 + L5). Eles recebem dois sinais diferentes de cada satélite, o que ajuda a separar o sinal direto do refletido e reduz parte dos erros. A diferença aparece mais na cidade e em terreno fechado. Em troca, costuma gastar um pouco mais de bateria.
Qual a precisão do GPS do celular?
Cada posição de GPS é mais um pequeno círculo do que um ponto. Segundo o site oficial do governo dos EUA sobre GPS, um smartphone com céu aberto costuma ter precisão de poucos metros (gps.gov). São boas condições: estrada de terra aberta, avenida larga, orla da praia.
Fica pior em terreno difícil:
- Centro com prédios altos («cânions urbanos»): o sinal reflete nas fachadas e a posição pode escapar dezenas de metros. Quem corre entre os prédios das grandes capitais conhece bem isso.
- Mata e árvores densas: as folhas, principalmente molhadas, enfraquecem o sinal. O traçado fica serrilhado.
- Túneis, passagens subterrâneas, pontes e viadutos: o sinal pode sumir por um instante. O aparelho chuta ou liga os pontos em linha reta.
- Vales fundos e encostas íngremes: só aparece um pedaço do céu, então há menos satélites.
Alguns metros de erro em um ponto parecem pouco. Mas a distância é a soma de milhares de trechos entre pontos. Se cada ponto treme para um lado aleatório, o traçado vira zigue-zague, e zigue-zague é mais longo que uma reta. Por isso, em terreno difícil, o GPS costuma superestimar a distância.
Frequência de gravação e curvas cortadas
A segunda causa é de quanto em quanto tempo o aparelho grava um ponto. Muitos relógios gravam a cada segundo, alguns menos no modo economia. Celulares também dosam o GPS conforme o sistema e as configurações.
Com poucos pontos, o aparelho liga tudo com retas. Num caminho cheio de curvas essas retas cortam as curvas, e a distância fica menor que a real. Numa trilha com zigue-zague na subida a diferença pode ser grande.
São dois efeitos opostos:
- ruído e zigue-zague somam metros,
- poucos pontos e curvas cortadas tiram metros.
Qual vence depende do percurso, do aparelho e das configurações. Por isso duas pessoas correndo juntas podem ter números diferentes, às vezes em direções contrárias.
Suavização e filtros: o que o software faz
Os dados brutos do receptor são agitados demais para somar direto. Todo fabricante filtra: descarta pontos imprecisos, suaviza o traçado e às vezes combina o GPS com os sensores de movimento.
Cada um faz isso de um jeito. Suavizar muito tira o zigue-zague, mas pode achatar curvas reais. Suavizar pouco deixa mais ruído. Não existe um algoritmo «verdadeiro», só escolhas. Mais um motivo para Garmin, Apple, Polar, Coros e um app de celular quase nunca baterem no metro.
O jeito de calcular a distância entre dois pontos também conta. A Terra é redonda (tecnicamente, um elipsoide), então um software correto calcula a distância geográfica, e não subtraindo coordenadas como num papel plano.
Por que nas provas sempre dá mais
É a pergunta número um depois de uma maratona. A resposta está em como se mede um percurso aferido.
Percursos de rua aferidos (por exemplo, pelas regras da World Athletics e da AIMS) são medidos com uma bicicleta calibrada com um contador de voltas da roda. O medidor segue a menor linha possível que um corredor poderia fazer: corta as curvas pela tangente, rente ao meio-fio. Depois soma-se uma pequena margem de segurança para o percurso nunca ficar curto.
E você? Corre no meio da pista, ultrapassa, desvia, vai até o posto de hidratação e abre o retorno. Cada movimento soma metros. Sem contar o erro normal do GPS, principalmente no centro da cidade.
Resultado: num percurso aferido, o GPS costuma marcar mais ou menos 0,5-1,5 % a mais, e entre prédios altos às vezes mais. Numa maratona, 1 % já passa de 400 m.
Na prática: não planeje o ritmo da prova no segundo pelo relógio. Se você está atrás de um tempo, deixe uma pequena margem ou confira as parciais nas placas de quilômetro. Veja mais sobre planejar o ritmo no nosso guia de pace na corrida e sobre estratégia de prova no texto da primeira maratona.
Pista de atletismo e esteira
Na pista, 400 m é só a raia 1
A volta de 400 m vale para a raia 1, medida a 30 cm da borda interna. Cada raia para fora é mais longa: na raia 2 a volta tem cerca de 407 m, na raia 8 mais de 450 m. Se você faz tiros nas raias de fora, corre mais que «400».
E o GPS sofre na pista: curvas fechadas, arquibancada e árvores em volta. O traçado parece uma batata, não um oval. Alguns relógios têm modo pista, que encaixa o traçado na raia. Sem ele, conte voltas.
Esteira: o GPS não percebe nada
Na esteira você não sai do lugar, então o GPS quase não marca nada. Os relógios estimam a distância pelo balanço do braço ou por um sensor no tênis, que precisa de calibração e está longe de ser perfeito. O painel da esteira também nem sempre é exato. Na esteira, o mais sensato é treinar por tempo e percepção de esforço.
Tabela: situação, erro típico e o que fazer
| Situação | Efeito típico | O que fazer |
|---|---|---|
| Área aberta, estrada larga | Geralmente pequeno, muitas vezes abaixo de 1 % | Espere o sinal antes de sair e corra |
| Centro, prédios altos | Traçado escapa, distância muitas vezes a mais | Use multibanda se tiver, ignore o pace instantâneo |
| Mata, árvores densas | Traçado serrilhado, erro para os dois lados | Leve o celular no alto, avalie o pace em trechos longos |
| Túnel, viaduto, passagem subterrânea | Perda rápida de sinal, salto de posição | Não ligue para o salto, vale o total |
| Trilha sinuosa, zigue-zague | Muitas vezes a menos por cortar curvas | Grave a cada segundo, desligue modos de economia |
| Pista de 400 m | Traçado fora da raia, erro de alguns % | Conte voltas, raias de fora são mais longas |
| Esteira | GPS inútil | Treine por tempo e esforço |
| Prova de rua aferida | Geralmente uns 0,5-1,5 % a mais que o oficial | Corra pela tangente, confira parciais nas placas |
Como medir com mais precisão: dicas práticas
Alguns hábitos simples fazem mais diferença que um relógio novo:
- Espere o sinal de GPS antes de largar. Vá para um lugar aberto, ligue a localização e espere a posição estabilizar. Sair na hora costuma dar um primeiro quilômetro estranho.
- Deixe o celular ver o céu. O ideal é o bolso de cima do colete de corrida ou um suporte de peito, não o fundo da mochila. O corpo e as garrafinhas de água também atrapalham o sinal. Compare as opções no nosso guia sobre como levar o celular na corrida.
- Ligue a localização exata. No iPhone, confira se o navegador ou o app têm a «Localização Exata» ativada. No Android, verifique se a Precisão da Localização do Google está ligada.
- Desligue a economia de bateria agressiva durante a corrida. Os modos de economia podem limitar o GPS. Em longões, leve um carregador portátil.
- Faça o teste na pista. Corra 4-5 voltas na raia 1 (1600-2000 m) e compare. É o jeito mais fácil de checar seu equipamento.
- Compare iguais com iguais. Mesmo percurso, mesmo aparelho, mesmo jeito de carregar. Aí a evolução do pace é confiável.
- Não confie no pace instantâneo na cidade. Olhe o pace médio da volta ou do quilômetro, não um número que muda a cada segundo.
Na montanha e na trilha entram também o sinal de celular e a segurança. Veja como preparar um treino com link ao vivo para a família no artigo sobre trail e montanha ao vivo.
Afinal, qual distância é a «real»?
Nenhuma medição de GPS é perfeita. O relógio, o celular e o percurso oficial medem coisas um pouco diferentes de jeitos um pouco diferentes. Diferenças de 1-2 % no dia a dia são normais, e num percurso aferido seu GPS quase sempre vai marcar mais que a distância oficial.
Em vez de correr atrás do número perfeito, cuide do sinal, compare treinos em condições parecidas e não se preocupe com saltos pontuais. E se você quer que seu pessoal acompanhe sua corrida num mapa ao vivo, com distância e pace calculados a partir de pontos filtrados, pode criar uma conta grátis e testar no próximo treino.
Perguntas frequentes
Por que meu relógio marcou mais de 42,195 km na maratona?
Percursos de maratona aferidos são medidos pela menor linha possível que um corredor poderia seguir, cortando todas as curvas. Na prática ninguém corre exatamente essa linha: você ultrapassa, desvia, vai ao posto de hidratação e abre as curvas. Some o erro normal do GPS e marcar 42,4-42,8 km é totalmente normal. Não quer dizer que o percurso estava longo.
Relógio GPS é mais preciso que o celular?
Depende mais das condições e das configurações do que do tipo de aparelho. O relógio fica no pulso com visão para o céu e costuma gravar com frequência. Um celular moderno com bom receptor, levado no alto e com localização exata ligada, pode ser tão bom quanto em área aberta. Em centro de cidade e na mata, os dois erram.
O GPS é preciso na pista de atletismo?
Nem tanto. As curvas fechadas da pista são difíceis para o GPS, e o traçado costuma sair da raia ou cortar a curva. Além disso, os 400 m valem só para a raia 1. Na raia 2 cada volta tem cerca de 7 m a mais. Na pista, contar voltas é mais confiável que o GPS.
Quanto tempo esperar o sinal de GPS antes de começar?
Com céu aberto, geralmente de alguns segundos a um ou dois minutos. Demora mais depois de uma viagem, se o aparelho ficou muito tempo sem uso ou entre prédios altos. Ligue a localização, vá para um lugar aberto, espere a precisão estabilizar e só então comece a correr.
Deixe quem torce por você acompanhar ao vivo
Vídeo, mapa GPS e pace em um só link. Quem assiste não precisa de app nem de conta.